Boatos de que a pista francesa no meio de Bourgogne (Magny-Cours também fica no meio do nada) sairá do calendário existem já há mais de uma temporada. Cada vez eles são mais fortes, cada vez eles são frustrados. Este ano não foi diferente. Mal o espectadores da Fórmula 1 se despediam daquele cinzento cenário, do asfalto liso, das curvas de raio constante, e lá apareceu o nome da pista, com todas as letras, no pré-calendário da FIA para 2009.
Tony Dodgins, um veterano redator britânico de automobilismo, escreveu certa vez, sobre a entrada de Magny-Cours na categoria: “Paul Ricard fazia parte da temporada no início da década, mas perdeu seu lugar para Magny-Cours. Se há algo que as pessoas mais odeiam do que Magny-Cours são os perturbadores caminhoneiros franceses. Em 1991, a F1 enfrentou ambos, quando eles bloquearam a França! Ricard, apesar de tudo, estava perto de Bandol, Cassis e algumas aprazíveis praias do Mediterrâneo”.

E por que a Fórmula 1 decide trocar uma localidade quente, bonita, rodeada de garotas fazendo topless, uma pista agradável por outra perdida em um lugar entediante, sem acesso por TGV (portanto, suscetível a efemérides como greve geral de caminhoneiros) distante de centros urbanos e habitada por pessoas que não ligam para corridas?

Dica: não foi por causa do asfalto liso.

Dizem que foi por causa de uma estreita amizade de Guy Ligier, dono de uma das equipes mais francesas que já existiram, e que usava a pista de Nevers como sede da Ligier, com ninguém menos que François Miterrand. O primeiro está afastado de seu antigo métier. O segundo está morto. E o GP da França continua estancado no mesmo lugar.

Há pessoas e pilotos, como Nick Heidfeld, que gostam do traçado de Magny-Cours. Afinal, ele tem curvas rápidas – mas nem por isso difíceis – e retas longas – pródigas em ultrapassagens. Sinuoso, além de tudo é compacto, o que seria maravilhoso para os espectadores se a disposição das arquibancadas não bloqueasse a visão da pista. Nevers é tão pródiga em receber turistas que os organizadores do GP foram obrigados a não aumentar os preços dos ingressos para este ano, sob o risco de o circuito ficar às moscas.

Enquanto os planos difusos de traçados urbanos em Paris não ganharem corpo, Nevers deve continuar recebendo o circo, mesmo com o histórico repleto de corridas sonolentas. Mas, se este fosse o critério que os dirigentes utilizassem para tirar circuitos do calendário, os mais jovens nunca teriam assistido a um GP da Espanha. Neste caso, nem a segurança conta a favor dos franceses: Marco Campo  morreu na Adelaide, em uma prova da Fórmula 3000 em 1995 e não houve uma alteração relevante sequer naquele trecho.

Assistir todos os anos a um GP em Magny-Cours é lembrar-se que, na Fórmula 1, quem manda é não é o esporte. A bem da verdade, nem nos tempos de Clermont-Ferrand e de Nordschleife o esporte dava a última palavra…