Garantido para 2009, Kimi Raikkonen dava pinta de que iria encerrar sua participação na Fórmula 1 muito em breve, deixando em aberto uma das vagas mais cobiçadas do grid. Levou tempo para o finlandês assinar contrato por mais um ano com a equipe Ferrari, mas finalmente veio o anúncio oficial. Para o desespero da Alonsomania.
A novela de Fernando Alonso não teve final feliz. Depois de várias declarações públicas de simpatia pela escuderia de Maranello, após árduas negociações de contrato – seja com a Renault, seja com outros times – pensando em usar macacão vermelho em 2010, bastou um curto comunicado para o sonho ruir. Esta é a realidade do bicampeão mundial: um piloto cheio de talento, ignorado pelas duas maiores equipes da categoria.

Sua reputação nunca foi exemplar, mas no intervalo de um ano piorou drasticamente. Arrogante e polêmico, tornou-se persona non grata na McLaren por uma série de aborrecimentos que causou no ambiente de Ron Dennis. Recusou-se a dividir o estrelato com o companheiro Lewis Hamilton, piloto estreante capaz de andar em ritmo de campeão mundial. Ao invés de aceitar a disputa limpa, Fernando exigiu tratamento diferenciado dentro da equipe, tentando tirar do inglês o direito de brigar pelo título, pedido evidentemente negado pelos dirigentes britânicos.

Participante ativo do episódio da espionagem, utilizou-se dos atos proibidos para encostar o chefão de Woking contra a parede. O que poderia ganhar em troca, se não a oposição de toda a escuderia? Tanto fez que a McLaren passou a jogar contra o próprio piloto no campeonato.

De volta à velha casa, pegou um carro ruim com motor problemático que obriga o piloto a tirar no braço o que a parte técnica não tem a oferecer. Sem papas na língua, critica o bólido em público com relativa freqüência, provocando a reação do patrão Briatore, que responde às críticas criticando o piloto crítico.

Por que razão será que a Ferrari coloca a dupla Raikkonen-Massa em primeiro plano em detrimento do único bicampeão em atividade?

Um foi campeão do mundo guiando pelo time. Tem um estilo agradável de quem chega, faz o que deve ser feito e vai embora. Jeitão retraído, frio, simples, que inspira confiança. O outro é prata da casa, aprendeu ali mesmo tudo aquilo que sabe. Apresenta um caráter mais latino, vibrante, trabalhador. Trabalha bem junto à equipe, incansável, gosta de trabalhar. Todos conhecem bem, viram crescer e agora querem presenciar suas conquistas.

Por que mudar? Por que arriscar a estabilidade do ambiente para trazer um sujeito com ego maior que o carro, que faz exigências, que quer se impor aos interesses do time, que pode ameaçar seus superiores e falar mal do equipamento quando este não corresponder às expectativas?

A Ferrari não precisa de um substituto para Michael Schumacher, e se precisasse não encontraria no Alonso. Jean Todt sempre teve razão quando dizia que o estilo do espanhol não condiz com o da escuderia. Uma atmosfera harmônica é o mínimo que os italianos precisam para trabalhar bem. Estabilidade é tudo.

Ainda assim, talvez Fernando mantenha alguma esperança de guiar por Maranello em 2011. Neste caso, precisará melhorar seu comportamento e também torcer para que duas vagas sejam abertas, pois já existe um candidato mais forte que ele, apoiado pelo heptacampeão mundial: chama-se Sebastian Vettel.

A única chance concreta de Alonso voltar à ponta do grid está na adoção da mesma tática de Michael: unir-se a um grupo com potencial e trabalhar para construir um modelo vencedor.

Na Renault parece difícil. O propulsor, além de fraco, é congelado pelo regulamento. Sem falar em Flavio Briatore, cada dia mais desanimado, cada dia mais aposentado. Na Honda encontrará o mago Ross Brawn, que pode repetir o próprio feito tornando real o novo desafio de um bicampeão. Por fim, tem a promissora BMW, que dispensa muitos comentários. Um dia ela chega lá.

Tudo o que o bicampeão deseja é colocar seu nome ao lado de ícones como Brabham, Stewart, Lauda, Piquet e Senna, gênios das pistas que ostentam o tricampeonato. Não se compara a nenhum deles, mas pode alcançar esta honraria trabalhando duro por um cockpit vencedor. Aos 27 anos, não há tempo a perder, já que logo se tornará um trintão batalhando contra os astros da nova geração. Pilotos jovens, talentosos, preparados, destemidos e vencedores.

A Fórmula 1 não é mais de homem só. Alonso está se tornando mais um no meio dessa boa e nova multidão.