Anti-KERS
A chegada do KERS está dando choque. O uso do dispositivo será facultativo neste ano, mas infelizmente sua tecnologia transcende o alcance dos engenheiros da categoria, sugerindo que as equipes formem parcerias com outras empresas para dividir a dor de cabeça provocada pela exaltação do apressado Max Mosley.
Boa parte do grid estreará em Melbourne sem o equipamento com o qual o presidente da FIA pretende salvar o mundo. Afinal, em época de crise séria, por que razão a F-1 queimaria tanto dinheiro para desenvolver o tal sistema?
As respostas mais imediatas que vêm à mente tratam do apelo ecológico, pensamento que move boa parte das iniciativas empresariais preocupadas com o futuro do planeta. Junte-se a isso o dom natural da categoria em lançar às ruas de todo o mundo novidades úteis à sociedade. Sem contar a consequência nas pistas do calendário, que ampliam as possibilidades de ultrapassagem.
Mas até que ponto os motivos apontados lhe parecem convincentes?
Exemplo. O argumento das rodovias não agrada Montezemolo, que não cansa de bater o pé para reclamar da incongruência mais evidente: o KERS da Fórmula 1 é completamente diferente do KERS de carros de rua. Ainda que o dirigente da Ferrari esteja insatisfeito com o andamento do aparato a ser utilizado no F60, não há como negar que sua observação é altamente relevante. Ou alguém aí acredita que, num belo dia, entrará numa concessionária e perguntará ao vendedor quanto de potência extra o botão K do veículo X é capaz de liberar?
Se o dispositivo das pistas fosse mesmo parar nos carros de rua, não faria sentido padronizá-lo em 2010. Sem concorrência, o ritmo de desenvolvimento do sistema cai. É sinal de que não é tão importante desenvolvê-lo.
Na F-1, a definição é: sistema que visa salvar a energia cinética durante as frenagens e reutilizá-la gerando potência extra no motor num curto intervalo de tempo. Agora diga se não notou nada de estranho nessa frase, um detalhe ligeiramente esquisito…
A essência da parafernália é reaproveitar o que seria desperdiçado antes para criar um gasto extra depois. O gasto é extra. Extra! Isso mesmo, a energia recuperada será apenas um gasto a mais. Nenhuma molécula de CO2 deixará de ser emitida, não há economia de combustível, não se economiza absolutamente nada. Onde está o seu conceito ecológico, então?
Eliminando a hipócrita Fórmula 1 “green-KERS” e a falsa contribuição com os carros de passeio, resta-nos o push-to-pass como acessório de ultrapassagem. Deveria ser vergonhoso para uma categoria desse porte baixar o nível a tal ponto. O piloto deve mostrar que tem braço, buscar a melhor trajetória, induzir o adversário ao erro… O piloto não tem que pressionar botão para ganhar posição. A F-1 não precisa disso.
O sistema de recuperação ideal seria aquele que reutiliza a energia em regime normal de trabalho do motor. Nesse caso, sim, haveria, de fato, a tão esperada economia energética. Até que transformem o conceito da tecnologia a ingressar nos bólidos, o KERS será, nada mais, nada menos, que um gasto extra de energia, um gasto extra de mão de obra, um gasto extra de tempo e, um gasto extra de dinheiro.



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