Uma equipe que tem o melhor carro do grid não precisa chegar à metade da temporada empatada com ninguém. Mas esse é o caso da Ferrari, que depois de nove das dezoito etapas do Mundial não pode ostentar a liderança isolada no campeonato de pilotos, mesmo possuindo uma das melhores duplas da F-1 atual, se não a melhor.

A liderança Todt-Brawn dissolvida nos dois últimos anos é a única explicação plausível para as falhas que vêm ocorrendo desde o ano passado. E se a escuderia foi campeã em 2007, deveria agradecer ao Nigel Stepney, porque sem o escândalo da espionagem, o resultado teria sido diferente.

Na temporada passada, Ross Brawn havia deixado a equipe; nesta, foi a vez de Jean Todt se afastar. E então foi concluído o retorno do bastão para as mãos dos italianos, sob o comando do então aprendiz de chefão Stefano Domenicali.

As grosseiras falhas da Ferrari têm se tornado ainda mais frequentes em 2008. No Canadá, não conseguiram realizar com sucesso o pit stop duplo no início da prova, e Felipe teve que passar o resto do GP recuperando posições na pista, no braço. Em Mônaco e em Silverstone ocorreram os episódios mais lamentáveis, com direito a algumas infelizes semelhanças.

Os mecânicos se enrolaram nos instantes que antecederam a largada em Monte Carlo, e o Kimi Raikkonen acabou punido porque os mecânicos não haviam fixado uma das rodas no carro do finlandês antes dos três últimos minutos que restavam para a volta de apresentação. Na Inglaterra, a vítima do mesmo erro foi Felipe Massa, durante a parte decisiva do treino oficial.

Mas não é só com roda que a equipe se enrola. Os dirigentes enfrentam certa dificuldade para adaptar a estratégia aos eventuais acontecimentos de corrida. Em Mônaco, abasteceram o carro do Felipe fazendo a dança da chuva e o asfalto secou. Em Silverstone, abriram mão da troca de pneus dos pilotos momentos antes da água voltar a cair.

Neste último caso, o resultado foi até mais desastroso: Kimi perdeu o direito de brigar pela vitória e contabilizou três rodadas durante o GP. Já o brasileiro rodou em cinco oportunidades, terminando em último, sendo que seu maior pecado foi ter escapado duas vezes já nas primeiras voltas, o que causou perdas de posições logo no início da prova, prejudicando totalmente a sua posição final numa corrida para esquecer.

Enquanto isso, Ross Brawn, na Honda, pôde comemorar o pódio de Rubens Barrichello.

Deu Ferrari em todas as etapas disputadas em condições normais. Isto é, a equipe tem, incontestavelmente, o carro mais rápido do grid. A parte da engenharia funciona, o problema está na inteligência de improviso. Esta temporada apresentou até aqui um alto número das chamadas “corridas malucas”, só que o time de Maranello não soube se comportar bem em nenhuma delas. Adaptou as estratégias de maneira errada, trocou o pneu na hora errada, deixou de trocar no momento errado, fez uso da meteorologia errada, esperou chuva quando ela não veio, e pensou no seco quando ficou molhado. O desafio não consiste em adivinhar o tempo, mas saber o tempo exato para se arriscar. Nesse quesito, a escuderia difere – e muito – daquela Ferrari com a qual nos acostumamos, enquanto a McLaren, por sua vez, continua dando aula. Não por acaso, todas as corridas com chuva neste ano foram vencidas pelo time de Woking, com suas sábias estratégias.

Nada disso, porém, põe em xeque o favoritismo da equipe de Domenicali rumo ao título mundial. Basta que não aconteçam muitas corridas malucas na segunda metade do ano.

É bom ressaltar que o italiano está apenas iniciando sua trajetória como diretor esportivo da Ferrari e não merece ser crucificado por tudo que venha a acontecer. Ele teve um excelente professor e chegou neste cobiçado cargo porque é capaz de desempenhá-lo bem. A fase de aprendizagem não está sendo fácil, mas por enquanto nada impede que um dia seja comparado aos grandes chefes de equipe. O começo ideal seria conquistar o campeonato de pilotos e de construtores em sua temporada de estréia. Portanto, apesar de tudo, Stefano ainda está bem perto de atingir o ideal em seu primeiro desafio como chefe de equipe. Porque uma guerra vencida esconde os erros de cada batalha mal brigada. E para a seqüência do trabalho, o importante é aprender a brigar.