Em fevereiro, mês que antecede o início do mundial de Fórmula 1, Rubens Barrichello estava nos Estados Unidos com sua família. Ao seu lado, o celular. A expectativa era por uma ligação de Ross Brawn.  

Sete meses depois, Barrichello dormiu novamente com o celular ao lado. Esperava por uma ligação dos engenheiros da equipe Brawn GP, em Monza: trocariam ou não o câmbio para a 13ª etapa do ano.

Resposta positiva resultaria na perda de cinco posições no grid de larga. De quinto, o brasileiro seria obrigado a largar da décima posição.

Fim de semana de acertadas decisões e pilotagem perfeita.

No sábado, a Brawn entendeu ser impossível vencer os carros com Kers estando na mesma estratégia. Fariam a pole, mas o que adiantaria se na largada perderiam o primeiro posto. Por exemplo, Lewis Hamilton pulasse de terceiro para primeiro, estando todos na mesma estratégia.

Resolveram arriscar. Acertaram!

Barrichello e Button saíram para um pit. Terceira fila no grid, com o brasileiro à frente. Na corrida, ambos cumpriram bem seus papéis, a equipe não interferiu na briga interna, venceu Rubinho.

A segunda decisão foi apenas referente ao carro do brasileiro. Trocariam ou não o câmbio, por conta do incêndio no final do GP da Bélgica que atingiu parte do equipamento.

Final de sábado em Monza, depois de ser apresentado a todos os gráficos de telemetria e simulações realizadas, Barrichello deu sua palavra: queria manter o mesmo câmbio.

Contou ter acordado por volta das 6h da manhã de domingo e, então, passou a dormir com o celular junto ao corpo, pois a decisão pela troca ou não seria tomada às 8h – horário local. De acordo com o engenheiro de Barrichello, Jock Clear, o câmbio vai durar as próximas duas etapas (Cingapura e Suzuka) para cumprir o limite previsto em regulamento, quando então poderá ser substituído.

Na pista, depois das corretas decisões, Rubens fez sua parte. Andou forte durante toda prova e venceu de forma incontestável. Nas últimas duas corridas, diminui quatro pontos para Button na briga pelo campeonato, número que matematicamente não são positivos, já que ele precisa tirar uma média de 3,5 pontos para virar o jogo e levar o caneco em Abu Dhabi.

Desde que entrou na F1, em 1993, Barrichello vive o melhor momento em um campeonato quando falamos em chances matemáticas. A primeira grande chance numérica aconteceu em 2000, em seu primeiro ano de Ferrari quando, ao vencer o GP da Alemanha, ficou apenas 10 pontos atrás do líder Michael Schumacher.

A Ferrari, então, “mexeu os pauzinhos”. O brasileiro teve um equipamento limitado na etapa seguinte, na Hungria, e abandonou o GP da Bélgica com pane seca. No mínimo, falta de preocupação da equipe com o resultado do brasileiro.

Depois disso, tratando-se de segunda metade de temporada, Rubinho esteve bem em 2003. Vencedor do GP da Inglaterra, o brasileiro ficou 20 pontos atrás de Schumacher, quando faltavam ainda seis etapas para o fim do ano.

Em 2009, com quatro provas para o encerramento, o brazuca tem 14 pontos de desvantagem para Button. Viu uma briga aberta em Monza e ouviu a melhor frase de toda sua carreira: “Não vamos interferir na disputa. Isso seria um erro!”

O autor? Ross Brawn, chefe do time inglês. Enquanto existirem chances matemáticas para os dois lados, nada de preferência. Com os pilotos da Red Bull praticamente fora da briga, o título será caseiro, independente de quem o conquiste. Apenas uma exigência: disputa limpa.

Em entrevista após o GP da Itália, Barrichello disse que não vai sair de seu carro para passar o acerto a Button. Situação muito comum nas primeiras corridas do ano, quando o inglês venceu seis corridas. Depois da confusão de Barcelona, quando a Brawn mudou a estratégia de Jenson para conduzi-lo à vitória, Rubens resolveu mudar a postura.

Não queria privilégios, mas deixou bem claro para o time que, aos poucos, o trabalho de acerto ficaria independente. Cada um na sua! Prova disso foi a frase de Button durante o treino classificatório para o GP de Nurburgring. Quando questionado pelo engenheiro qual pneu usaria na próxima saída de boxes, o inglês respondeu via rádio: “vamos aguardar a decisão de Rubens”.

Não existia mais um diálogo aberto…

Agora, estando na briga direta pelo título, é que Barrica vai mesmo esconder o jogo. E vêm pela frente pistas onde achar um acerto ideal não é nada fácil, com destaque para Japão e Brasil.

Essa história de que Barrichello está em ascensão e Button estagnado pode até ter seu valor, ‘pero no mucho’. Como diria Fangio, “Carreras son Carreras”…

Portanto, pensemos em Cingapura!

Fato concreto, apenas um… Button tem uma margem de 14 pontos para administrar nas últimas etapas do ano. Barrichello, por sua vez, trabalha no limite e só pode pensar em descontar.

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