Brasil olímpico
Ufa! Enfim acabou a Olimpíada de Beijing! Que me perdoem os fãs de esportes e, principalmente, a popular trupe do “Pra frente, Brasil!”. Mas a 29a edição do maior evento esportivo foi uma tortura ao torcedor verde-amarelo. Sim, é verdade que tivemos alguns bons momentos. Mas o número de conquistas ficou abaixo das expectativas – que, por sinal, apesar de positivas não eram em nada exorbitantes. Sobraram frustrações. Pane geral no time de Dunga, sumiço de vara, pezinho fora do tablado, “traseiro” no chão depois de queda no último salto… E por ai vai.
Mas se o Brasil amargou a 23a posição no quadro de medalhas do evento realizado na capital chinesa, há uma modalidade – que, sabe-se lá porque, muitos não consideram como esporte – na qual nosso Brasilzão teima há décadas em obter inúmeras conquistas, intrometer-se entre as potências. Trata-se do automobilismo. Para comprovar tal condição, basta uma olhadinha no rendimento dos principais representantes do País nas duas maiores categorias de monoposto do mundo, Fórmula-1 e Indy Racing League, além dos respectivos campeonatos de base, GP2 e Indy Lights. Apenas nos oito primeiros meses de 2008, o Brasil soma 47 pódios nesses certames. Numa adaptação à linguagem olímpica, são 14 medalhas de ouro, 17 de prata e 16 de bronze. Nenhuma outra nação possui marcas tão expressivas, seja em número de douradinhas ou no total de premiações.
No domingo, a vitória de Felipe Massa em Valência garantiu ao Brasil a liderança no “quadro de medalhas” da temporada de Fórmula-1. São quatro conquistas de ouro e duas de prata, mesmos números da Grã-Bretanha, de Lewis Hamilton e David Coulthard. Contudo, os tupiniquins possuem três medalhas de bronze; os britânicos conquistaram “apenas” duas. Detalhe interessante é que os três atletas tupiniquins (Massa, Rubens Barrichello e Nelsinho Piquet) já garantiram medalhas nesse ano, algo que não acontecia desde a edição de 1990 da categoria da FIA.
Um degrauzinho abaixo da F-1, na GP2, os representantes brasileiros colocaram, apenas em 2008, onze medalhas no peito. Bruno Senna faturou seis, mais precisamente duas douradas, uma prateada e três bronzeadas. Já Lucas di Grassi, que estreou apenas na sétima etapa do campeonato, conquistou cinco em dez corridas disputadas. Além de dois ouros, obtidos nas segundas baterias realizadas em Hungaroring e Valência, o piloto de testes da Renault tem um trio de prata. Como Senna e di Grassi na GP2, a dupla brazuca da Indy Lights, formada pelos jovens Raphael Matos e Bia Figueiredo também garantiu quatro medalhas de ouro ao País nesse ano.
Distinto a F-1, a Indy Racing League não tem o Brasil como líder do quadro de medalhas. Com duas de ouro (uma para Tony Kanaan e outra para Hélio Castroneves), o país é apenas quarto colocado no ranking. A liderança é da Nova Zelândia. Aliás, a representante da Oceania já assegurou o título da “Olimpindy-2008”.
Faltam apenas duas provas (Detroit e Chicago) para o término do evento e os neozelandeses contabilizam seis douradas, obtidas pelo talento quase irretocável de Scott Dixon; Estados Unidos e Austrália são, respectivamente, segundo e terceiro no ranking, ambos com três ouros. Já se adotada a classificação pelo total de medalhas obtidas, nosso Brasilzão é líder. E com sobras. São 16 premiações, contra 11 de Nova Zelândia e sete dos Estados Unidos.
Mas, cá entre nós: não seria errado usar um sistema de qualificação fora dos padrões das Olimpíadas? Sem dúvidas. Porém, se alguns noticiários ianques divulgaram o rendimento dos Estados Unidos em Beijing dessa forma, a fim de mostrar que os atletas da terra do tio Sam titilavam mais medalhas que os chineses – e não evidenciar a lavada imposta pelos rivais em números de ouros, por que não exibir a eles o outro lado da moeda? Ou seria da medalha?!
Contudo, bem mais interessante que as marcas já descritas, que evidenciam a capacidade de nossos pilotos em receber a bandeira quadriculada de corridas mundo afora entre os três primeiros colocados, é notar que há brazucas na disputa pelo título da temporada nos quatro certames. Claro, chances maiores aqui, menores acolá…
Porém não devemos, de modo algum, ficar envaidecidos. Assim como o nadador César Cielo, ouro nos 50 metros e bronze nos 100 metros livres, nossos talentos do esporte a motor chegaram a um alto estágio de competitividade porque desenvolveram essa capacidade no Exterior. Apesar de sensíveis melhoras em relação aos cenários dos últimos anos, além de bons campeonatos de carros esportivos, o automobilismo do nosso Brasilzão ainda deve muito. Falta apoio ao kart, atividade que cria campeões das pistas, mas que ainda tem a famigerada fama de hobby, brincadeira de fim de semana, não uma profissão que gera empregos diretos e indiretos. Faltam melhores condições estruturais a 99,9% dos autódromos pelo Brasil. Faltam categorias-escola, para que a garotada recém-saída do kart possa aprender muito sobre monopostos por aqui, ao invés de sair completamente “cru” para aventuras no Exterior.
Definitivamente, o Brasil não é potência em inúmeros setores. Inclusive no bom e velho esporte a motor. Mas os pilotos brasileiros… Ah, esses sim, são a nossa potência.
Ultimato faz bem à saúde- Felipe Massa teve um fim de semana impecável em Valência. Cravou pole, volta mais rápida de corrida e liderou praticamente todas as voltas do GP. Mais que isso, o F2008 do brasileiro parecia andar sobre trilhos, tamanho o equilíbrio exibido no circuito de rua de Valência. Pelo jeito, o ultimato à turma da Ferrari fez bem. Pelo menos, na Mônaco espanhola.
Melhor para Massa…- … Que a vitória e o excelente rendimento do F2008 foi ver o motor do carro do companheiro de equipe Kimi Räikkönen abrir o bico. Não que exista qualquer problema entre ambos, mas a briga pelo caneco com Hamilton está afunilando e a Ferrari precisa escolher seu número um. O pessoal de Maranello espera que esse seja Massa.
De volta ao pódio- Depois da vitória em Montreal, Robert Kubica e BMW andavam nas nuvens e com os pés um pouco longe do acelerador. Após a vitória no Canadá, que colocou-o na liderança do Mundial, Kubica somou apenas quinto, sétimo e oitavo lugares em quatro corridas. Mas em Valência ambos voltaram a andar bem. O polonês recebeu a quadriculada em terceiro lugar.
Bem na fita- E a Toro Rosso fez bonito. Andou bem no treino classificatório e obteve mais três pontinhos com Sebastian Vettel. Rapidíssimo, muito bom de braço, Vettel já é da Red Bull para 2009 e, se bobear, belisca um cockpit de time grande no ano seguinte. Mesmo sem pontuar, Bourdais se aproveitou da experiência de correr às dúzias em circuitos de rua nos tempos de Champ Car e terminou em 10o lugar.
Grosjean titular?- Corre por aí o papo de que a permanência de Nelsinho Piquet na Renault depende do futuro de Alonso. Se o espanhol sair, ele fica; se Fernando ficar, Nelsinho perde espaço a Romain Grosjean, jovem francês que integra o Renault Drivers Development (RDD) e faturou o título da GP2 asiática. Não é segredo a ninguém que Grosjean ganhou muito espaço nesse ano na Renault. Agora se vai ou não ser titular, a história é bem diferente…
Radar ligado- De qualquer modo, não custa o Nelsinho ficar com o radar ligado. Fórmula-1 é um mundo de esquisitices e ele, mesmo com bons resultados, pode perder espaço na Renault. Daí um dos caminhos seria a Williams (fim de feira).
Pena que…- … o crescimento de Grosjean desvie um pouco as atenções da Renault para Lucas di Grassi. Ele cumpre temporada fantástica na GP2 e venceu a segunda bateria disputada em Valência. Na primeira, chegou em quarto lugar. Já merece lugar na Fórmula-1. Mas na Renault, vai ser difícil…



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