Confuso, mas esperto Ecclestone
“Se as montadoras toparem assinar um acordo de longo prazo, podemos deixa-las gastar o quanto quiser”.
Em época que a relação entre montadoras e a cúpula da Fórmula-1 parece tumultuada, tal declaração do todo-poderoso da Formula One Management (FOM), Bernie Ecclestone, à revista inglesa Autosport, causa estranheza. Muita estranheza. Não é segredo a ninguém que o momento é de pura instabilidade na economia mundial.
Vale afirmar que a imagem da categoria continua forte. Prova disso é que a Coréia do Sul já garantiu seu GP para 2010; a Índia está bem próxima de confirmar etapa a partir de 2011. Muitos outros países querem sediar provas da categoria que, no ano passado, teve uma das disputas por título mais eletrizantes da história do esporte a motor. Mas a crise global ameaça a Fórmula-1, de modo indireto. Sabe-se lá se o lucro das montadoras na venda de veículos de passeio irá diminuir substancialmente ao longo do ano. Sabe-se lá se patrocinador graúdo de um time não vai à lona, se haverá interesse na continuidade do vínculo contratual caso tal empresa pare nas mãos de outro grupo. Nesse cenário de incertezas e prejuízos – somado aos resultados patéticos dos últimos dois campeonatos, foi-se a Honda.
Muito além das questões econômicas, a frase de Ecclestone parece enfadonha quando verificamos que, em 58 temporadas, sempre houve essa tal filosofia de “gastar o quanto quiser”. Sim, em determinados períodos houve regulamentos e manobras políticas com objetivo de reduzir custos aos times, como a proibição ao uso de motores turbo, no final dos anos 80. Contudo, nunca nada referente ao quanto – e como – o pessoal deveria torrar sua grana.
Esquisitices à parte, toda essa aparente confusão de Mr. Ecclestone é de fácil compreensão. Ele, que outrora mostrou-se forte patrono da limitação de custos por temporada às equipes de Fórmula-1, quer a parceria das montadoras do certame (FIAT, Mercedes Benz, BMW, Renault e Toyota) por longo tempo. Em troca, deixa as coisas do jeitinho que estão. Afinal, sabe que alterações consideráveis no regulamento podem causar um verdadeiro reboliço entre as grandes marcas, com até alguma chance de motim e fuga para a criação do eternamente cogitado “campeonato paralelo”. E a única categoria capaz de destruir a condição da F-1 de principal do mundo automobilístico é a própria F-1; basta sucumbir a pressões de bastidores e uma cisão, semelhante a que houve entre Champ Car e Indy Racing League, no fim de 1995.
Confesso que considero soberba a idéia – meio anarquista, meio neoliberal – de tio Bernie. As equipes sabem onde e quando o calo aperta e, se investem quantias superiores a 500 milhões de dólares por ano, é porque há feedback. A única função da FOM e da FIA é discutir e desenvolver regulamentos – não esdrúxulos – para que a distância entre times grandes (leia-se ricos) e pequenos (não tão ricos assim) não cresça o suficiente a ponto dos nanicos se desmotivarem. A disparidade entre esses times sempre irá existir. E, acredite, é o que torna essa categoria tão interessante. Lembro-me bem do quanto foi legal ver Ayrton Senna, em 1993, levando a McLaren-Ford a rendimentos sensacionais com dois objetivos. Primeiro: claro, vencer a Alain Prost, que tinha em mãos um poderoso Williams-Renault. Segundo: mostrar que merecia pilotar pelo time de Frank Williams.
Ele conseguiu o segundo. Mas, quis o destino, por pouco tempo.
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