Considerado um dos percussores de Zico no Flamengo, Moacir foi um jogador digno de vestir camisa dez. Inteligente, preciso no passe e lançamento de bola, foi parar até na seleção brasileira. Aliás, durante a preparação da equipe à Copa do Mundo de 1958, por conta do excelente rendimento em treinos, chegou-se até a cogitar que ele seria titular, no lugar de Didi. Foi então que o “Príncipe Etíope”, pai do chute apelidado de folha seca, disparou uma celebre frase: “Treino é treino; jogo é jogo”. Detalhe: Didi foi titular absoluto nas seis partidas do torneio no qual o Brasil garantiu o primeiro título de cinco títulos mundiais. Moacir não  disputou sequer um jogo – mas, cá entre nós, foi um privilegiado espectador do desabrochar para o futebol de gênios como Garrincha e Pelé.  

Se a máxima de Didi costuma valer nos gramados, a situação não é nada diferente nas pistas. Aliás, cabe uma adaptação à máxima do ex-craque de Botafogo e Real Madrid que cai muito bem nesse momento da Fórmula-1: “Teste é teste; corrida é corrida”.

Os resultados na pré-temporada da categoria, em gigantesca parte, não são presságio de que um time vai fazer bonito no campeonato vindouro. A meta primordial da fase de preparação é conceder às equipes a oportunidade de desenvolver tecnologias aos carros que, brevemente, estarão em pista para a disputa da temporada. Fruto dessa liberdade é que sabe-se lá se, nos benditos testes coletivos, uma equipe não está atrás de um ajuste para os freios, outra rachando a cuca para tirar proveito do KERS ou apenas querendo impressionar, com o carro voando baixo com umas três gotas de gasolina no tanque de combustível…

Prova de como essa relação entre pré-temporada e resultados é estranha e quase inválida aconteceu com Felipe Massa nessa semana. Em testes no circuito de Sakhir, na terça-feira, Massa cravou o segundo tempo. Pode parecer uma boa marca, mas detalhe é que apenas ele e outros dois pilotos disputaram tal sessão. Contudo, o brasileiro mostrou-se contente com o que o modelo F60 apresentou em pista. Especialmente ao que o carro produziu sob acertos aerodinâmicos mais voltados à corrida. É sabido que a distância a ser percorrida num GP (mais de 310 quilômetros) é quatro a cinco vezes superior a de um treino. Tendo em vista tal disparidade é possível compreender porque nos treinos busca-se um setup sensivelmente mais voltado a velocidade; nas corridas, à durabilidade.

De fato, nem Felipe – tampouco qualquer membro da Ferrari – bateria no peito e comemoraria, como se fosse gol de título, a melhor marca nesse evento. Se viesse, bacana. Mas isso é secundário. Extremamente. Preferem trabalhar vislumbrando o amanhã, onde haverá corridas e, aí sim, o cronômetro volta a ser sinônimo perfeito de competitividade e garantia de pontos na busca pelo título mundial.

O ocorrido com Felipe em Sakhir pode nos levar a uma dedução animadora. Afinal, se a Ferrari já busca a estabilidade do equipamento ao longo de uma corrida é sinal de que a velocidade do carro foi, em principio, aprovada pelos técnicos do time de Maranello. Só não é possível ainda afirmar se isso é suficiente para coloca-la no topo da hierarquia da Fórmula-1 ou ainda na busca por tal condição. Mas fato é que a Ferrari é time grande sob qualquer circunstância e aposta conservadora na disputa por vitórias e títulos. Conjuntura muito diferente, por exemplo, da Toro Rosso.

É bem verdade que o time com base em Faenza possui profissionais de primeira linha, caso do projetista Adrian Newey que rabisca os TR zero alguma coisa. Além disso terminou 2008 com excelentes rendimentos nas pistas e conta com Sébastien Bourdais – teoricamente – adaptado à F-1 e Sébastien Buemi, um piloto promissor. Mas, mesmo sob o risco de queimar a língua, afirmo que a STR não passa de um time que, embora possa surpreender em etapas esporádicas, dificilmente pode almejar algo além de um quinto lugar entre Construtores. Culpa da grana. Os investimentos da equipe, estimados em 80 milhões de dólares por temporada, são modestos aos padrões da categoria.

Sim. É verdade que Buemi se mostra frequente nome entre os mais velozes durante testes em Algarve e Jerez nos últimos dias. Mas esse rendimento é um parâmetro duvidoso. Isso porque o suíço correu com um carro predominantemente dotado de acertos do modelo da STR em 2008. Nesse sentido, possui vantagem em relação a adversários como McLaren e Ferrari, escuderias com bólidos 2009 recém colocados em pista e que levaram tempo da STR nos circuitos português e espanhol. O carro da prima pobre da Red Bull já conta com uma porção de ajustes colhidos ao longo de um ano de existência, seja em treinos ou corridas.

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