Vaivém da Fórmula 1
A Fórmula-1 é modalidade de vaivém. O formato das provas da categoria já remete a tal conclusão. São dezenas de voltas em um circuito fechado, algo diferente ao que acontece, por exemplo, em grande parte das competições de rali, onde pontos de partida e chegada de eventos são distintos. Mas, além disso, a turma da F-1 costuma buscar no passado soluções para problemas atuais. Vide o regresso dos pneus slicks aos carros do certame após dez temporadas de ausência. Meta? Simples. Conceder um pacote técnico capaz de proporcionar aos pilotos maior facilidade na busca por ultrapassagens durante as corridas.
É fácil compreender a proposta da FIA. A superfície dos pneus slicks é totalmente lisa, portanto o composto possui inteiro contato com o asfalto; já os sulcados, que marcaram presença nos carros de 1998 até o GP Brasil passado, têm quatro ranhuras ao longo do pneu. Nesse sentido, a aderência gerada ao monoposto pelos “lisos” é superior aos “riscados”. Com o incremento do grip, os pilotos podem estender a freada do monoposto às curvas. Além disso, há um sensível acréscimo à velocidade do carro em retas e, especialmente, em curvas. Curioso é que, ao final de 1997, a FIA trocou os slicks pelos sulcados para tentar, por meio da antecipação do ponto de freada, aumentar o número de ultrapassagens nas provas da categoria.
Mas, para não dizer que trata-se de um regresso total ao pacote aerodinâmico do fim dos anos 90, a FIA acrescentou o KERS aos carros de F-1.
O KERS é um sistema que armazena num cilindro a energia despendida pelo carro no instante da desaceleração. Quando acionado pelo piloto, o KERS proporcionará um acréscimo de 81 cavalos à potência do motor durante um período de quase sete segundos. Trata-se de um aumento fácil de ser obtido, pois basta apenas um terço da energia recuperada em uma freada de 250 a 50 quilômetros por hora para “encher” o cilindro. Portanto, haverá boost aos F-1 em todas as voltas sob bandeira verde de um Grande Prêmio. No entanto, fica a dúvida: será que, na boa e velha prática, o KERS representará ganho de velocidade aos carros?
Engana-se quem pensa que basta colocar o dito-cujo no carro e apertar o botão. Apesar do acréscimo de potência, vale ressaltar que os monopostos podem sofrer defasagem em termos aerodinâmicos. O cilindro pesa entre 25 e 60 quilos. Claro que isso pode ser compensado com a retirada de um ou outro lastro que costuma “rechear” os bólidos de F-1. Contudo, a distribuição do peso, função desempenhada pelos lastros, é quesito importante na configuração aerodinâmica do carro. O posicionamento dessas peças varia de circuito a circuito na busca pelo equilíbrio do monoposto. Nas pistas com alta média de velocidade por volta, onde o downforce na traseira do carro deve ser baixo, costuma-se leva-los um pouco mais à frente do veículo. Vale lembrar que o KERS ficará sempre ligado às rodas traseiras do fórmula. Ou seja, se não bem utilizado, pode ser tão insignificante quanto um lastro imóvel durante toda a temporada.
A busca para extrair a potência do KERS sem prejudicar a aerodinâmica dos F-1 será a principal equação a projetistas, engenheiros e mecânicos das equipes nessa pré-temporada. Equação que, até o momento, parece longe de uma resolução. O pessoal da Toyota já tratou de tirar o cavalinho da chuva e deve começar o próximo campeonato sem o aparato nos carros. Mas quem também deve procurar uma cobertura para o eqüino é o pessoal que espera ver os carros de 2009 detonarem recordes de voltas logo nos primeiros testes da fase de preparação ao próximo campeonato. Além da adaptação ao KERS, os motores deverão sofrer uma sensível perda de potência em detrimento à durabilidade. Afinal, durante a temporada vindoura, a vida útil dos motores passará de dois a três GPs.
Claro que não devemos subestimar o trabalho da turma que costuma rabiscar carros e componentes de F-1. Trata-se de gente extremamente competente e profissional. No entanto, o resultado de todo esse mexe-mexe ainda é uma incógnita. Algo, aliás, que alguns desconfiam. Mas só Deus sabe.
De qualquer forma, será bom se tudo der certo.



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